24 Dezembro 2008
Sem peso.
E a noite passara, o disco rodara, as luzes cessaram, a janela e a manhã chegaram. A despedida chegara. E o sorvete, no congelador ficara com todos os outros cem pesos daquela noite de qualquer outro.
19 Dezembro 2008
Educação Básica

Para tratar o assunto com mais respeito e dedicação, devo revelar que tenho Ensino FundaMental, Ensino Médio, Reservista e Carteira de Trabalho. Ah, e RG também.
Descobri minha dificuldade em escrever livremente e literalmente. Fui algum tempo preso às idéias de outros, tenho consciência que isto não é ruim e proposital, é natural do crescimento quando estamos em busca ou cursando os ensinos básicos.
Existem aqueles que elaboram caminhos para outros. Mas aí, deve ser um tipo de Educação Privada, ou seja, se terceriza ao mérito de não assumir completamente as responsabilidades.
Tem a que desce direto pela descarga - aproveitando o ambiente. Nesta, é bem difícil especificar seus tratados, porque o fato palpável é que é inerente a cada um o controle que se defeca naturalmente e diariamente.
Não posso esquecer-me da espontânea, da radical, da educação clássica (ou “classuda”), da sexual e apelativa, da engraçada da determinada e principalmente da errada. Agora chegamos à Educação Difícil, a que julga diferente e é facilmente apontada por seus entes queridos como a falta de: falta de algo, de Educação Respeito.
Mas aí já são tantas, e o objetivo da vez é só não esquecer que toda Educação, sendo Básica (base?) ou adicional (compram-se pacotes adicionais) são interdisciplinares e quase nunca são capazes de responder a todas as questões. Que, mesmo com todas elas, as suas chances de acertar todas as perguntas de uma prova, são quase, veja bem, quase possíveis.
17 Dezembro 2008
Oi. (idéia)
Hospital. Branco Variável. O fundo em blur toma forma de um rosto.Ao fim, a visão (câmera) volta a embaçar até o branco tomar conta de toda forma.
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Oi.
Como vai? Como tá se sentindo?
Acho que não sei o que vim fazer aqui. Mas talvez isso não importe, não é mesmo? A gente quase não se conhece, e nos conhecemos tanto. É difícil ver você.
Mas eu não sei, não consigo ver, ou entender, qual o meu significado pra você. Ou o que realmente somos. Não vim com nada preparado, apenas vim; isso é de mim, você sabe.
Quantos momento!.. E a gente vai ficando velho, nostálgico, dando valores às coisas, às pessoas. E tudo vai acontecendo, naturalmente.
Lembra...
A gente viaja tanto, não é mesmo?
Mas olha onde estamos agora, um de frente para o outro. E que diferenças existem entre nós? Entre as pessoas do mundo, quando nos deparamos com a única coisa que nos move: o amor.
Até o ódio, é amor. E também nos move. Entre nós mesmos e entre as pessoas.
Mas chega de tudo isso. Nem ficar bravo com você eu consigo, nem posso. Nem quero.
Dorme bem.
15 Dezembro 2008
Compaixão texto de Dário Bertulucci
Se partirmos do princípio de que todo ser vivo é uma alma eterna devemos considerar algumas idéias que fazem referência à alma. Primeira coisa que penso é que toda alma é eterna e indivisível e portanto quando estamos dentro do corpo material sentimos uma insatisfação inerente a esta condição. Da mesma forma que nos sentimos incomodados quando estamos viajando dentro de um carro ou avião por muito tempo e não conseguimos fazer tudo o que gostaríamos fazer, além, de ter nossas ações limitadas aos recursos de prazer que o automóvel ou aeronave nos oferece. A alma também tem suas ações limitadas ao corpo que nasce cresce, envelhece e morre. Imagine o quanto é doloroso para um ser eterno ter que sujeitar a estas atividades materiais próprias do corpo. Seria a mesma sensação de uma mulher muito bela ao envelhecer ou um homem muito forte ao envelhecer. Acredito que de certa forma todo ser vivo tenta compensar essa insatisfação agindo em busca de prazeres. Porém por estar dentro de um corpo material com sentidos materiais se encontra sempre ocupado em prolongar os prazeres temporários do mundo. Acho que passamos mais tempo procurando e se esforçando em criar novas e mais prolongadas formas de prazer do que realmente desfrutado. Agir é uma necessidade da alma e por agir dentro de atividades materiais adquire uma falsa identificação com o corpo e prazeres do corpo, acreditando que isso é tudo que importa. Uma prova que temos uma necessidade de agir é que se a alma é eterna e tem uma necessidade de agir em busca de prazer é normal pensarmos que todo ser vivo tem uma atividade eterna que o leva a uma realização de prazeres diferentes dos prazeres materiais. São atividades e prazeres que não tem relação nenhuma com a matéria. Enquanto estamos no corpo material as atividades materiais que facilitam essas atividades superiores são diretamente influenciadas pela bondade. Acredito que a bondade condiciona o ser vivo a entender as atividades próprias da alma. Agir na bondade é aquela ação que é controlada sem apego ao resulta e sem aversão. É uma ação que o ser faz apenas por ter prazer em agir desta maneira e por saber que o propósito da vida não é apenas ganhar prazeres materiais e honra dos amigos. A vida destina-se a conhecer a verdadeira posição do ser vivo na criação. Se habilitar para conhecer o amor. Quem sabe que a alma é eterna sabe que quando alguém morre o que se perde na verdade é o corpo e o ser que dava possibilidade do corpo agir e se transformar permanece vivo. Ele apenas adquire uma nova condição de vida que normalmente depende das ações que cada um praticou durante o tempo de vida do corpo que se foi; isto quer dizer que todas as coisas feitas durante a vida dão frutos após a morte, as vezes doce e as vezes amargo. Pessoas realmente inteligentes apesar de as vezes cair de posição material, nunca perdem de vista o verdadeiro propósito da vida e por isso são sempre bem sucedidas em todos os aspectos. Mesmo que aparentemente não estejam inclusos num padrão de vida que julga-se próprio de pessoas felizes e realizadas.
12 Dezembro 2008
Meus sentimentos ao Rio de Janeiro.
Pois bem, a primeira vez que estive no Rio de Janeiro foi em 2005. O Marcos, um amigo na época, me convenceu de irmos passar o natal e conhecer algumas pessoas. Ele fez a reserva de um quarto com 2 camas de solteiro, na Lapa, no Rio's Nice Hotel, que fica na Rua Riachuelo. Próximo da Central do Brasil e de muita coisa.
Virginia, que faz aniversário no mesmo dia que eu, 3 de Maio. Alex, que até hoje não sei o que dizer. Michel, um grande parceiro. Marcos, uma duvida.
Eu, um garoto.
Foram muitos momentos, do dia 9 de Dezembro ao dia 22 de Dezembro. Como passar a noite assistindo filmes (ou tentando em meia diversão que fazíamos sem o tempo), dormir no chão, acordar tarde, ir para o Arpuador, o Garage, comer batata-frita, tirar fotos, festas, lugares, aventuras, etc etc etc.
Tudo passou, e tudo foi. Como descrição e/ou prescrição médica: tudo passa e nos serve de experiências, na lembrança, na memória no espírito e na alma, (no caso, o espírito é o caminho que nos interliga com as demais objeções, e a alma: nós). Não coloco aqui a opção de boa ou ruim. Mas, de lembranças inesquecíveis. Os que me conhecem já sabem que nem sempre lembro de tudo. Mas, acho que não é possível, ou depende da maneira como cada um registra os seus acontecimentos.
Outras idas aconteceram, tudo mudou, as pessoas se mudaram. Mas a imagem, a imagem de tudo, ainda existe.
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Volto ao Rio neste Dezembro de 2008. Na rodoviária o Michel me buscará, talvez a Virginia. E talvez o Rodrigo. E tudo, a imagem, só serve agora, para nos levar de novo aos mesmos lugares.
09 Dezembro 2008
Freaky
F(elicidade)alsa. Que não satisfeita, implica até com aqueles momentos frágies de sensível algodão-doce. Leve, macio, suave... À todas as infinitas possibilidades de tentar descrever, e dizer em alto tom que... que... que... os segundos passaram, outros vieram, outros vieram, repito. E tentam vir de novo. Outros pássaros, novas asas. novos vôos.
Mas oras, horas, que horas são agora? Oras! De onde vem esse jeito de escrever assim?
Como escrever uma simples história narrativa?
07 Dezembro 2008
Vandercleison. De Issac Elias.

Ele estava determinado. Entrou no Conjunto Nacional, ali na esquina da Paulista com a Augusta, e foi direto para o elevador. Foi até o último andar, subiu uma escadinha e foi para o terraço. Já passava das 18 horas e a cidade já estava acesa.
Dona Vanizilda, que passava por ali, olhou para o prédio e lá em cima viu aquele vulto. Parou e ficou tentando adivinhar o que era. Devido à iluminação e às luzes intermitentes das antenas, ora ela pensava ver algo sobrenatural, ora pensava ver um ET.
Outras pessoas começaram a parar e a olhar para cima. Uma pequena multidão se formou. Um sujeito de terno cinza comentou: ”É uma pessoa. Vai se matar”. Foi o bastante para que várias pessoas começassem a gritar: PULA... PULA... PULA...
Vandercleison só ouvia o zumbido do vento diante da imensidão da cidade. Era como se ele flutuasse sobre um mar de estrelas. Amarelinhas. Nem podia imaginar o que acontecia lá embaixo. A pequena multidão havia crescido. Pessoas expunham idéias. Jackson, um barbeiro, sugeriu que se conseguisse um lençol branco para que se pudesse escrever a Palavra CALMA. Mas aonde arrumar um lençol? O coro continuava PULA...PULA...PULA...
Começaram a aparecer pipoqueiros, trombadinhas e até vendedores de churrasquinho, o que teve gente que achou de muito mau gosto.
Vandercleison a tudo ignorava. Ele havia mergulhado nas profundezas daquele mar de luzes. Quando emergiu, dirigiu-se para a beira do prédio e gritou: MEU CORAÇÃO É PEQUENO!!! MEU CORAÇAO NÃO AGUENTA!!!
Sem mais nem menos, uma voz pastosa, meio embargada disse: GUENTA...GUENTA SIM...VAI POR MIM QUE GUENTA... Era Marivaldo. Caído, bêbado e com o coração dilacerado.
Vandercleison virou-se assustado e perguntou: QUEM É? Marivaldo levantou-se cambaleante e respondeu: “Dentro de mim há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que sou” E caiu.
Vandercleison correu em direção a Marivaldo para ajudá-lo. Apesar do susto, em seu pensamento ainda persistia a impressão que a cidade lhe dera: “quando não há para todos, as pessoas se isolam, cada um pensa que pode viver melhor sozinho, não tem que repartir com os outros, o que conseguir é seu e de mais ninguém”.
Marivaldo, tentando se levantar, recusa a ajuda de Vandercleison. Com a mão direita segurando uma garrafa de cachaça no peito e o braço esquerdo estendido como se estivesse dançando com alguém, ele, bêbadamente, tenta cantar uma antiga canção popular: PASSEI A NOITE PROCURANDO TU, PROCURANDO TU, PROCURANDO TU... Marivaldo, definitivamente, não sabe como sobreviver sem a sua tão amada Genésia dos Anjos.
Dez minutos após, a multidão aumentava e já ocupava parte da Rua Augusta. Ninguém sabia explicar direito o que estava acontecendo.
Lá em cima, Marivaldo estava em prantos. Marivaldo conheceu Genésia dos Anjos numa sala de bate-papo na internet. Ele usava o nick Amante Latino, ela Libélula Deslumbrada ou Deusa do Amor. Mentiram muito um para o outro: ele se descreveu mais alto do que era, mais magro e disse serem azuis os olhos que eram negros; ela disse ser loira dos cabelos lisos, era morena do cabelo de chapinha, ela dizia que tinha 25 anos mas tinha 35; e por aí vai. Trocaram endereços dos MSNs e passaram a teclar quase diariamente durante horas. Ela se dizia perdidamente apaixonada por ele e fazia juras e mais juras de amor. Ele declarou seu amor: não podia mais viver sem ela. Até que um dia a conversa foi esquentando e acabaram por fazer sexo virtual. Daí nunca mais pararam. Faziam sexo virtual e ficavam enlouquecidos.
Ficavam de marcar encontro mas as mentiras foram tantas que sempre, um ou outro, arrumava uma desculpa para que ele não ocorresse.
Marivaldo estava totalmente entregue ao amor por Genésia dos Anjos. Até que um dia entrou no MSN e nada de Genésia. Ficou horas conectado à espera. E nada. Ele foi ficando desesperado. Dois dias e nada. No terceiro dia ele começou a beber sem parar. Nada de comer. Só cachaça. Foi aí que decidiu subir até o terraço do Conjunto Nacional.
Marivaldo chorava de soluçar. Vandercleison se comoveu. Aproximou-se e percebeu o tamanho da dor que Marivaldo penava: ele chorava lágrimas de sangue.
Marivaldo o abraçou e disse: CARA, AS ESTRADAS VIVIDAS NÃO LEVAM DE VOLTA...
Ainda com as lágrimas de sangue escorrendo pela face, Marivaldo num acesso de lucidez coloca as mãos nos ombros de Vandercleison e pergunta:
- E tu? O que fazes por aqui? - Vandercleison virou-se calmamente e caminhou em direção à mureta. Subiu na mureta. Olhou profundamente para a cidade. Virou-se para Marivaldo e disse:
- Algo em mim quer fazer poesia. Estou em busca da poesia que não perdi. - Virou-se novamente em direção à cidade e gritou:
- Onde estão os sonhadores? Onde estão os utópicos? DEUS, por que não respondes? - Quando acendeu o painel da temperatura, o vulto de Vandercleison pode ser visto por algumas pessoas lá embaixo. A multidão agitou-se. Aquele mesmo grupo, agora maior, insistia: PULA...PULA...PULA
Marivaldo Maquessuel da Silva apenas murmurou: Viiixxiiii !!!!
03 Dezembro 2008
O dia que conheci você. (não necessariamente resposta do anterior) de Rafael Alberto.
As pontas dos seus dedos são magras. Eu disse, tocando de leve a mão dele com as pontas dos meus próprios dedos, também eles magros. Se não me engano estava ao telefone. Eu, não ele. Sim, estava sim. E era do trabalho. Algum chato querendo saber coisas sobre tamanhos e limites e títulos e espaços e prazos e tchau. Mas do outro lado da linha a pessoa insisti. Por página fica difícil, mas duas e meia é muito. Você sabe contar os caracteres? Não? Seleciona o texto todo. Lá em cima, Ferramentas, e deve ter ae um Contar Palavras. Achou? Isso. Vê Caracteres com Espaço, por favor. Não!, 9 mil caracteres é muita coisa. Não, não tem como. Com isso eu faço uma página. Não. Hum, a média é 2.500, 3 mil. Por favor, caso contrário não posso publicar. Tudo bem, não tem problema. Se tiver outras dúvidas, pode ligar, claro. Não, não. Sim, nos vemos amanhã. Boa noite.
‘Devolta’ ao bar, percebo agora que as pontas magras dos meus dedos continuam nas pontas magras dos dedos dele. E agora nos acariciamos. Timidamente. Meu joelho encosta no dele, ‘como’ que sem querer (ou é o contrário? O joelho dele no meu, também ‘como’ que sem querer?). Tímidos não somos e a conversa flui bem. Mas nossos corpos ainda se estranham (e não é essa a palavra certa... nossos corpos ainda não conhecem um ao outro e o medo – que também não é medo... enfim.). A vontade de ambos é entregar-se ao corpo um do outro, aqui, agora. Mas por algum motivo toda a entrega fica nas mãos. E elas procuram se conhecer. Uma apertando a outra ou uma acariciando a outra e afagando e apertando de novo. Dedo a dedo.
Me atrevo e espalmo uma de minhas mãos na perna dele. Ou, de novo, seria o contrário? Ele, atrevendo-se, espalma uma de suas mãos em minha perna? Não sei dizer, ainda mais agora – não importa mais – que ambos têm as mãos espalmadas, um sobre a perna do outro.
Saímos do Mac. Mas não queremos ir embora. Mas também não sabemos o que queremos. Não. Sabemos o que queremos, um ao outro... e não querer ir embora é a forma ingênua – talvez inconsciente – para manifestar esse querer gostoso, criativo, mas ainda não declarado. Estamos na Paulista e não sabemos pra onde ir. Porque não importa o lugar, importa a gente, importa um ao outro. Importa nossos joelhos esbarrando, ‘como’ que sem querer, um no do outro. Importa as pontas magras dos nossos dedos magros se acariciando, descobrindo-se mutuamente.
Seguimos em direção à Consolação. Ele (Eu) me (o) abraça(o). E as pontas magras dos nossos dedos agora estão na extremidade de um semi-abraço ainda tímido. Abraço de quem quer agarrar, mas não agarra, e fica de lado, e fica sem jeito e fica procurando encaixe. E não encontra, mas encontra! E nos largamos, nos afastamos e depois eu, ou ele, de novo, com a ponta magra dos dedos, levantando os braços, por trás, até a altura do ombro do outro, dá um apertão. E novo semi-abraço, nova vontade de agarrar, de encaixe que não encaixa, e sai. Chegamos numa rua e decidimos voltar.
Estamos agora em direção ao Paraíso. Literal e figurativamente. Caminhamos, esbarramos, semi-abraçamos, encaixamos e desencaixamos. Mac Café? Ele pergunta. Ali embaixo, ó, é bem tranqüilo. Não. Eu não gosto muito deste espaço do Mac. Quem sabe o Frans? Cê que sabe. Ta longe? Não, é no próximo quarteirão. Então, vamos lá.
Entramos. Sentamos. E nossos joelhos (safados) de novo se esbarram. E os dedos? Os meus na perna dele. Os dele na minha. Com a perna dele no meio das minhas, forço ambas e o abraço assim, por baixo. Ele acha graça e repete o gesto. Ele é magro. Mas tenho pernão!, logo defende-se. Talvez por que as minhas sejam muito finas. Ou por que as dele sejam mesmo grossas. O fato é que ele tem pernãos, mesmo, ainda mais quando está comigo.
Lá no Mac tinha dito que tenho muitos pêlos nas pernas. E ele dissera que também tinha. Duvidei. Ali, no Frans, com um pouco mais de privacidade, mostro como estava falando a verdade, e levanto um pouco as minhas calças, a pontinha, mostrando minha canela. Ó. Duvido que as suas sejam tão peludas. São, sim. Ó. Ah, o coturno é difícil tirar, mas são iguais as suas. Rimos. E de novo as pontas magrelas dos nossos dedos se encontram.
Vinho? Seria bom. Mas eu sou fraco para a bebida. Então, seria melhor ainda. Rimos de novo. E nossos dedos magrelos de novo. E de novo as carícias nas mãos, e os joelhos se esbarrando e o abraço de pernas que inventamos e rimos. Ainda não escolhemos, ele diz à garçonete que se aproximara da mesa. Folheamos o cardápio. Bonito, né? Pois é. Parece até um livro, de fotos, publicado. Rimos. Café? Não gosto nem do cheiro. E rimos de novo. Nossos dedos, de pontas magrelas, agora entrelaçados.
Você gosta de cerveja preta?, ele pergunta. Posso dividir com você. Sinal para a garçonete. O serviço daqui nunca é bom, né, comento. Ele faz que sim com a cabeça. Rimos. E a garçonete chega.
A cerveja preta é doce? E nossos dedos entrelaçados, com as pontas magras tateando as palmas. Não sei, senhor. Nunca experimentei. Será que uma das suas amigas não sabe?, ele pergunta, apontando o rosto para trás do balcão, onde duas moças lavam louça. Vou verificar, só um minuto. Onde eu trabalhava, tínhamos que conhecer tudo de tudo que vendíamos, desde os molhos, ingredientes. Aqui o atendimento é ruim, insisto. É, mas o ambiente é agradável. Sim.
Elas disseram que é doce, sim. Então traz uma, dois copos. Ok. Dedos entrelaçados, joelhos esbarrando e mais riso e mais confidências. Passa um tempo. Um bom tempo. Conversamos. Nossos joelhos se esbarram. Nossas mãos se acariciam. Nossas pernas se abraçam. Nossas pontas magras de dedos se entrelaçam.
Licença, e põe os copos na mesa. As meninas estão na dúvida se é mesmo doce. Pode deixar assim mesmo. Ele abre a garrafa. Serve-se primeiro. Depois meu copo. A nós! Tim tim! E rimos. A cerveja não é doce. Mas é gostosa, não tem aquele gosto amargo de cerveja. Verdade. E bebemos.
Ela é bem gostosa, tanto quanto as doces, só faltou o açúcar, ele comenta. E rimos. E os dedos se entrelaçam. Você tem quantos irmãos mesmo? Dois, mas um só mora comigo. Verdade. Mora com os avós, né? Sim. E seus pais? Minha mãe morreu, meu pai casou, mudou... Seu signo? Leão, e o seu? Touro.
Os dedos, os joelhos, as pernas, os olhos... Vamos pedir a conta? Tá tarde. É direto no caixa. Tem certeza? E levantamos. Tenho, vem. Pagamos. Na rua, caminhamos para o metrô. Novos semi-abraços disfarçados. Estamos mais próximos. Mais conhecidos. No Paraíso, prolongamos até Ana Rosa. Eu prolongo ainda um pouco mais. Até Vila Mariana. Nos falamos. Sim, nos falamos. Longo abraço-inteiro, no metrô mesmo. Nossos dedos, magros, acariciam as costas um do outro. A porta vai fechar, Tchau. Tchau.
Ele segue para um lado... E eu para o outro. Nos vemos, então, diante do abismo que é a vida de cada um de nós dois. Resta saber se vamos pular nesse abismo. (se é que ainda não pulamos)
...

