
Ele estava determinado. Entrou no Conjunto Nacional, ali na esquina da Paulista com a Augusta, e foi direto para o elevador. Foi até o último andar, subiu uma escadinha e foi para o terraço. Já passava das 18 horas e a cidade já estava acesa.
Dona Vanizilda, que passava por ali, olhou para o prédio e lá em cima viu aquele vulto. Parou e ficou tentando adivinhar o que era. Devido à iluminação e às luzes intermitentes das antenas, ora ela pensava ver algo sobrenatural, ora pensava ver um ET.
Outras pessoas começaram a parar e a olhar para cima. Uma pequena multidão se formou. Um sujeito de terno cinza comentou: ”É uma pessoa. Vai se matar”. Foi o bastante para que várias pessoas começassem a gritar: PULA... PULA... PULA...
Vandercleison só ouvia o zumbido do vento diante da imensidão da cidade. Era como se ele flutuasse sobre um mar de estrelas. Amarelinhas. Nem podia imaginar o que acontecia lá embaixo. A pequena multidão havia crescido. Pessoas expunham idéias. Jackson, um barbeiro, sugeriu que se conseguisse um lençol branco para que se pudesse escrever a Palavra CALMA. Mas aonde arrumar um lençol? O coro continuava PULA...PULA...PULA...
Começaram a aparecer pipoqueiros, trombadinhas e até vendedores de churrasquinho, o que teve gente que achou de muito mau gosto.
Vandercleison a tudo ignorava. Ele havia mergulhado nas profundezas daquele mar de luzes. Quando emergiu, dirigiu-se para a beira do prédio e gritou: MEU CORAÇÃO É PEQUENO!!! MEU CORAÇAO NÃO AGUENTA!!!
Sem mais nem menos, uma voz pastosa, meio embargada disse: GUENTA...GUENTA SIM...VAI POR MIM QUE GUENTA... Era Marivaldo. Caído, bêbado e com o coração dilacerado.
Vandercleison virou-se assustado e perguntou: QUEM É? Marivaldo levantou-se cambaleante e respondeu: “Dentro de mim há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que sou” E caiu.
Vandercleison correu em direção a Marivaldo para ajudá-lo. Apesar do susto, em seu pensamento ainda persistia a impressão que a cidade lhe dera: “quando não há para todos, as pessoas se isolam, cada um pensa que pode viver melhor sozinho, não tem que repartir com os outros, o que conseguir é seu e de mais ninguém”.
Marivaldo, tentando se levantar, recusa a ajuda de Vandercleison. Com a mão direita segurando uma garrafa de cachaça no peito e o braço esquerdo estendido como se estivesse dançando com alguém, ele, bêbadamente, tenta cantar uma antiga canção popular: PASSEI A NOITE PROCURANDO TU, PROCURANDO TU, PROCURANDO TU... Marivaldo, definitivamente, não sabe como sobreviver sem a sua tão amada Genésia dos Anjos.
Dez minutos após, a multidão aumentava e já ocupava parte da Rua Augusta. Ninguém sabia explicar direito o que estava acontecendo.
Lá em cima, Marivaldo estava em prantos. Marivaldo conheceu Genésia dos Anjos numa sala de bate-papo na internet. Ele usava o nick Amante Latino, ela Libélula Deslumbrada ou Deusa do Amor. Mentiram muito um para o outro: ele se descreveu mais alto do que era, mais magro e disse serem azuis os olhos que eram negros; ela disse ser loira dos cabelos lisos, era morena do cabelo de chapinha, ela dizia que tinha 25 anos mas tinha 35; e por aí vai. Trocaram endereços dos MSNs e passaram a teclar quase diariamente durante horas. Ela se dizia perdidamente apaixonada por ele e fazia juras e mais juras de amor. Ele declarou seu amor: não podia mais viver sem ela. Até que um dia a conversa foi esquentando e acabaram por fazer sexo virtual. Daí nunca mais pararam. Faziam sexo virtual e ficavam enlouquecidos.
Ficavam de marcar encontro mas as mentiras foram tantas que sempre, um ou outro, arrumava uma desculpa para que ele não ocorresse.
Marivaldo estava totalmente entregue ao amor por Genésia dos Anjos. Até que um dia entrou no MSN e nada de Genésia. Ficou horas conectado à espera. E nada. Ele foi ficando desesperado. Dois dias e nada. No terceiro dia ele começou a beber sem parar. Nada de comer. Só cachaça. Foi aí que decidiu subir até o terraço do Conjunto Nacional.
Marivaldo chorava de soluçar. Vandercleison se comoveu. Aproximou-se e percebeu o tamanho da dor que Marivaldo penava: ele chorava lágrimas de sangue.
Marivaldo o abraçou e disse: CARA, AS ESTRADAS VIVIDAS NÃO LEVAM DE VOLTA...
Ainda com as lágrimas de sangue escorrendo pela face, Marivaldo num acesso de lucidez coloca as mãos nos ombros de Vandercleison e pergunta:
- E tu? O que fazes por aqui? - Vandercleison virou-se calmamente e caminhou em direção à mureta. Subiu na mureta. Olhou profundamente para a cidade. Virou-se para Marivaldo e disse:
- Algo em mim quer fazer poesia. Estou em busca da poesia que não perdi. - Virou-se novamente em direção à cidade e gritou:
- Onde estão os sonhadores? Onde estão os utópicos? DEUS, por que não respondes? - Quando acendeu o painel da temperatura, o vulto de Vandercleison pode ser visto por algumas pessoas lá embaixo. A multidão agitou-se. Aquele mesmo grupo, agora maior, insistia: PULA...PULA...PULA
Marivaldo Maquessuel da Silva apenas murmurou: Viiixxiiii !!!!


Rafa, vc sempre criativo. Preciso conhecer sua arte ao vivo.
ResponderExcluirO texto é meu. Mas acredito que depois que escrevi, belo ou feio, importante ou não, pode e deve ser apropriado por todos que o quiserem...
abs